Eu vejo dentro de você


O meu rosto arde quando meus olhos confrontam o sorriso de Valter. A verdade é que Valter, nos meus dias de folga em que passo na pequena cidade onde cresci, faz com que eu me sinta viva no lugar onde sou essencialmente infeliz. Valter faz meu mundo cinza colorir. Mas o que sinto por ele não é amor, longe de qualquer sentimento que se assemelhe a este, a verdade é que Valter me desvia da rotina, faz com que eu olhe para partes de mim que quase sempre ficam adormecidas, Valter acorda as borboletas do meu estômago. Gosto delas, gosto da fuga do que me é comum, gosto do platonismo que há nesse sentimento. Sinto falta da ausência de reciprocidade e da emoção desesperada que ela causa, com Valter essa reciprocidade não existe. Gosto da impossibilidade de haver algo entre nós. A adrenalina do proibido me faz continuar a alimentar esse vício. Valter é minha droga.

Me sinto nua, sinto que os mais íntimos pensamentos transpassam meus olhos e atingem Valter sem que perceba, certamente ele não é capaz de ver os efeitos de sua presença em mim. A verdade é que gosto dessa exposição, gosto de ter meu estômago gelado enquanto caminho e da cócega gostosa que sinto no peito. Fico um pouco zonza, porém tudo some tão rápido. Não sou nada para Valter, assim como ele não é nada para mim – nada além de poesia. Sendo minha poesia, ele se torna mais para mim do que sou para ele. Vejo em Valter o que não sou capaz de ver em mim e isso me cativa, vejo nele a própria solidão. Talvez Valter nunca a veja e sempre sinta essa falsa plenitude que ele transparece ter. Valter, assim como eu, está meio vazio.

Meu desejo mais íntimo é que Valter veja a si mesmo como eu o vejo. Mas Valter nunca saberá o que significa para mim. Valter sempre será minha paixão pendular. A ideia perfeita de paixão instantânea. Meu pequeno passatempo na cidadezinha pacata do interior que eu tanto odeio. Valter sempre será para mim muito mais do que sou para ele. Valter, apesar de ganhar um espaço no papel, sempre será meu segredo profundo, uma pequena fotografia guardada em minha carteira, um projeto pessoal e idealizado. Você ainda sorriria, Valter, se soubesse o quão desnuda sua alma se projeta para mim? Valter, eu vejo dentro de você e, assim como eu, você não é feliz.

ESCRITO POR LARIH BATHORY
FOTO DE KENT MACDONALD

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