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Born This Way, like a Cyborg!


“I'll follow you until you love me / Papa-Paparazzi”* Nos palcos do VMA de 2009, uma música que falava sobre a relação doentia dos Paparazzis com as estrelas foi interpretada. Os trajes para aquela apresentação foram estabelecidos pelos organizadores: vestimentas sexys. VMA é um palco para as divas pop exibirem seus corpos sexualizados, com colãs cheios de glitter e muito glamour… não havia para onde fugir. Não havia como fugir dos organizadores, bem como as estrelas não puderam fugir de seus paparazzis, da fama, do estrelato, do título de “estrela”... da solidão, da degradação de tudo o que eram… da morte. E é com seu corpo sexualizado por uma imposição do evento que surge o sangue, que toma conta do peito, da apresentação e da mente... proferindo “Promise I'll be kind / But I won't stop until that boy is mine / Baby, you'll be famous, chase you down until you love me”**.
A apresentação acima em questão faz parte de seu primeiro CD da cantora Lady Gaga, The Fame, em que, mesmo no início de sua carreira, ela já apresentava suas asas de mulher livre. Seus lançamentos seguintes foram The Fame of Monster, Born This Way, Art Pop e Joanne. Minha análise tem como foco seu terceiro CD, Born This Way, talvez o momento mais enfático de seus questionamentos com a humanidade, utilizando-se do audiovisual para criar toda a narrativa de seu álbum que engloba androgenia, tecnologia, evolução, transexualidade e liberdade, pontos que relacionarei com o artigo de Donna Haraway, O Manifesto Ciborgue (1985).
Stefani Germanotta começou nas artes cedo, e sempre deixou evidente sua vocação; curiosamente, ainda mais para esta análise, ela chegou a frequentar faculdade de artes, tendo escrito inclusive artigos analíticos, talvez como este que está lendo. Contudo, foi através de muita dedicação que ela emergiu na área da música, e talento, pois ao contrário de muitos, seu reconhecimento foi puramente artístico. É então que surge Lady Gaga, a qual é uma cantora pop, branca, loira e magra; em suma, alguém que está dentro do padrão socialmente aceito. Porém, o que poderia ser uma zona de conforto para que mais uma cantora pop colocasse seus estereótipos de life style igual à tudo o que a mídia prega, Gaga parte para uma vertente autoral, trazendo seus pensamentos de liberdade de expressão para o mundo da música, e mostra como uma vivência pop pode ser diferente e não estigmatizada por - mais uma vez - homens que decidem o que faz ou não sucesso. Vemos uma mulher lutando não apenas pelo seu espaço - as vezes privilegiado, outras não -, mas de pessoas colocadas fora dos grandes grupos sociais, por não seguirem o padrão socialmente aceito.
"This is the manifesto of Mother Monster: On GOAT, a government owned territory in space, a birth of magnificent and magical proportions took place. But the birth was not finite, it was infinite. As the wombs numbered and the mitosis of the future began it was perceived that this infamous moment in life is not temporal, it is eternal. And thus began the beginning of the new race; a race within the race of humanity; a race which bears no prejudice, no judgment but boundless freedom. But on that same day as the eternal Mother hovered in the multiverse another, more terrifying, birth took place: the birth of evil. And as she, herself, split into two, rotating in agony between two ultimate forces, the pendulum of choice began its dance. It seems easy, you imagine, to gravitate, instantly and unwaveringly, towards good but she wondered, “How can I protect something so perfect without evil?"” (LADY GAGA, Introdução do vídeo-clipe Born This Way, 2011)***

O monólogo acima, que ambienta o espectador para o clipe Born This Way, música que intitula o álbum, nos situa em uma realidade evoluída, em que a reprodução através da união entre homem e mulher dá lugar a uma reprodução assexuada, individual. Essa cria “perfeita”, segundo é contado, não possui preconceitos, ódio ou qualquer coisa que circunda a nossa realidade atual. Tal pensamento é muito interessante se relacionado com o de Haraway, quando esta menciona um futuro em que ser ciborgue não será encarado como problema, tornando-se uma sociedade desprendida dos padrões atuais, em que a mulher se enxerga como mulher por suas vivências, e não apenas pela ideia biológica, ponto que a autora ressalta ser muito limitante, visto que somos construções tecnológicas, acoplando em nós os avanços que a nossa sociedade alcança; ou seja, visto que somos todos ciborgues. E, ao passo que humanidade nos condiciona enquanto ciborgues, ignorar tal condição seria ignorar nossas vivências pessoais e manter somente a biologia de base para algo maior, a consciência do eu. Assim como ignorar toda essa trajetória ciborgue que percorremos a deslegitima transformando a nós - em especial os grupos que mais sofrem com a negação da experiência ciborgue -  em meras “costelas” de um alguém homem, que nos “possibilitou” existir.
Utilizando signos do universo sacro, a cantora faz um dos seus singles do CD, Judas. Neste a cantora narra a paixão por aquele que nas histórias bíblicas entrega o personagem Jesus Cristo aos seus opositores romanos. Gaga fora acusada por várias vertentes, tanto extremistas quanto moderadas, da sociedade de passar dos limites com sua arte ao passo que, em teoria, teria blasfemado o nome do "Senhor". Faz-se importante, contudo, compreender as nuances da crítica supostamente enviesada apenas religiosamente; o lugar ocupado por Gaga enquanto mulher inserida em uma sociedade essencialmente patriarcal não pode ser negligenciado, pois é o cerne tanto da obra Judas de Gaga quanto das questões levantadas por Haraway em seu manifesto. Judas trás o medo em sua letra, medo de uma mulher que se apaixona, que passa a sentir. Logo, sua devoção passa a ficar mais difícil, visto que ela se “corrompe” pelo sentimento de amar alguém errado.



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A busca pela aceitação do eu é mostrada ao longo de todo o CD, utilizando-se de diversas representações imagéticas para 3 principais pontos: a sociedade, o eu em conflito e o sentimento proibido, este último tendo interpretações desde uma personalidade divergente até o amor por alguém do mesmo sexo. O processo pode ser entendido como toda a trajetória que se deve percorrer para que um dia cheguemos à esta sociedade evoluída que é referida no começo da música título do álbum.


"O ciborgue está determinadamente comprometido com a parcialidade, a ironia e a perversidade. Ele é oposicionista, utópico e nada inocente. [...] Diferentemente das esperanças do monstro de Frankenstein, o ciborgue não espera que seu pai vá salva-lo por meio da restauração do Paraíso, isto é, por meio da fabricação de um parceiro heterossexual, por meio de sua complementação em um todo, uma cidade e um cosmo acabados. O ciborgue não sonha com uma comunidade baseada no modelo da família orgânica mesmo que, desta vez, sem o projeto edípico. O ciborgue não reconheceria o Jardim do Éden; ele não é feito de barro e não pode sonhar em retornar ao pó." - HARAWAY, Donna J., O Manifesto Ciborgue, 1985


Contudo, é importante que, para analisarmos o álbum e sua ideologia, precisamos entender por quem ele foi consumido, visto que se deixássemos o público fora, não teríamos a totalidade de sua disseminação, podendo compreendê-lo de modo equivocado e criando imagens que não fossem reais sobre o material em seu “todo”. Para elucidar tal importância, recordo o fato do Super Homem de Nietzsche ter sido incorporado pelo Nazismo, quando sua proposta estava completamente desassociada das ideias de Hitler. Deste modo, precisamos entender qual o público que Gaga conversa, seus conhecidos Little Monsters e também a massa com quem também dialoga.
Intitulados carinhosamente deste nome, já podemos ter uma ideia de quem compõe o fandom da Mãe Monstro. Temos que separar o público de Gaga, pois seu título de maior artista pop contemporânea não existe à toa, são muitos grupos vivenciando Gaga em seu dia-a-dia e reverenciando-a; contudo, apesar do público socialmente aceito, que consome sua música normalmente, temos seus monstrinhos, Frankensteins que procuraram ou procuram um sentido em suas vidas e o entendimento do porque que estão à margem da sociedade - alguns já com consciência de si, outros não. Esse grupo marginalizado enxerga Gaga para além de diversão; eles sentem suas músicas e as vêem como orações para alguém que verdadeiramente os compreende, visto que são pecadores perante muitos dos olhos daqueles que oram “pelo pai”.
Gaga declara, junto de seus fãs, que não há problema em ser diferente. Com suas músicas que exaltam a liberdade, trilhando esse futuro que um dia chegaremos em que os ciborgues tomarão conta de tudo, os pensamentos de Haraway são ouvidos também. Uma sociedade evoluída, em que não importa como você é pois não existe julgamentos. Associo então, essas duas mulheres ao filme Chappie, ficção científica que retrata inteligência artificial e seus impactos na sociedade; neste, uma de suas discussões é sobre como o modo de enxergar o mundo é o verdadeiro parâmetro para entender a “humanidade” de alguém; ideia que pode englobar a luta gay, trans e feminista. O termo “ciborgue”, então, baseando-se no olhar de Haraway e de Gaga, talvez se torne sinônimo de “humano” - adjetivo usado designar a compreensão, bondade e altruísmo - do momento futuro.


“[...]De uma outra perspectiva, um mundo de ciborgues pode significar realidades sociais e corporais vividas, nas quais as pessoas não temam sua estreita afinidade com animais e máquinas, que não temam identidades permanentemente parciais e posições contraditórias.[...]” - HARAWAY, Donna J., O Manifesto Ciborgue, 1985

Vou te seguir até você me amar / Papa-Paparazzi - em tradução livre. (LADY GAGA, 2008)
**  Prometo que serei gentil / mas não vou parar até aquele garoto ser meu / Amor, você será famoso, perseguirei você até que me ame - em tradução livre. (LADY GAGA, 2008)
*** Esse é o manifesto da Mãe Monstro. Em um espaço e território alienígena dominado pelo governo, Um nascimento de proporções magníficas e mágicas ocorreu. Mas o nascimento não era finito. Era infinito. Enquanto os ventres cresciam em número e a mitose do futuro começou, foi percebido que esse momento infinito da vida não era temporal, era eterno e então começou o início de uma nova raça, uma raça dentro da raça da humanidade, uma raça sem preconceitos, sem julgamentos, mas liberdade sem limites. Mas no mesmo dia, enquanto a mãe eterna “Desovava”, outro nascimento muito mais aterrorizante aconteceu, o nascimento do mal. Enquanto ela se dividia em dois, girando de agonia entre duas forças elementares, o pêndulo da alegria começou a dançar. Parece fácil, você deve imaginar, girar em torno do bem. Mas ela pensou: 'como posso proteger algo tão perfeito sem o mal? - em tradução livre


REFERÊNCIAS


HARAWAY, Donna. Manifesto Ciborgue. Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. in INFODESIGN -2009.1: Imagem e Complexidade – Profa. Oriana Duarte.


GAGA, Lady. "Papparazi" By Lady Gaga. The Fame. 2008. Faixa.


GAGA, Lady. Born This Way. 2011. Album.

CHAPPIE. Direção: Neill Blomkamp. 2015.





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