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Tá na tela, tá na vida, ou por que "Bicho de Sete Cabeças" é tão atual?


Em tempos de sombras e incertezas, vemos com grande força elementos conservadores e retrógrados ganharem mais uma vez adesão das pessoas e, em consequência, das políticas de Estado. Este processo não é de hoje, e tampouco iniciou-se com o acontecimento simbólico do “impeachment” (vulgo golpe), que afastou a então presidenta Dilma Rousseff em 2016; essa movimentação vem crescendo sorrateiramente há anos e sabemos que este fantasma do retrocesso se incorpora e toma forma tanto nas macropolíticas (o Estado, suas leis e representantes, por exemplo) quanto nas micropolíticas (relações humanas e interpessoais, por exemplo). O cinema, assim como outras artes veiculadas constantemente pela mídia, sabe do peso que tem neste jogo político de optar por trabalhar ou não com certas temáticas. E quando essas temáticas são trabalhadas: como, por quem e para quem foi produzido? Como bem definiu o cineasta iraniano Bahman Ghobadi, “a câmera é uma ‘arma’ com forte poder de influência”. Não é apolítico fazer um filme sobre a Operação Lava Jato, assim como não o é quando se trata de um filme como este que se faz tão atual quanto nunca, que é Bicho de Sete Cabeças (2001).

Ismail Xavier, em entrevista para a revista Educação & Realidade, defende que o cinema que “educa” é aquele que faz pensar, que coloca em xeque as noções do que é natural e o que é realidade dos seus expectadores. A questão, para ele, não é apenas “passar conteúdos”, e sim provocar a reflexão, questionar. Penso que é interessante olharmos com carinho para esta colocação, a fim de que a potência do cinema não esteja localizada apenas no emocionar os espectadores, ou em divertir, distrair. O cinema também pode ser o cinema que “educa”, que promove desvios, que nos tira da zona de conforto e promove rupturas no pensar e ver o mundo. Aquele que cutuca, instiga, e que também denuncia e causa ânsia.

Bicho de Sete Cabeças, dirigido por Laís Bodanzky, é com certeza um desses filmes. Foi baseado no livro autobiográfico de Austregésilo Carrano Bueno, Canto dos Malditos. Austregésilo, que foi internado por porte de maconha, relata os horrores vividos nos três anos em que esteve no manicômio. Ambas as obras escancaram uma realidade que insiste em existir, contrariando todos os esforços e árduas batalhas da luta antimanicomial e por direitos humanos (spoiler: em maio escreverei sobre isso). O filme é centrado na internação compulsória de Neto (Rodrigo Santoro) pelo seu pai (Othon Bastos), que achou um cigarro de maconha no bolso da sua camisa. Não houve diálogo, não houve cuidado, não houve acolhimento. Não houve nenhuma tentativa de compreensão, e a narrativa nos mostra que a relação de Neto com seus pais era atribulada, típico de um conflito geracional e de valores que tende a eclodir na adolescência com mais força. No afã de tentar curar seu filho desse “vício” (notemos que a mãe de Neto, interpretada por Cássia Kis, aparece fumando cigarro várias vezes no decorrer do filme, propositalmente para que pensemos “mas então quem é o viciado aqui?”), os pais de Neto optam por interná-lo. 

Ah, a internação… uma promessa de ‘cura’, de ‘endireitamento’ dos sujeitos. E ao mesmo tempo, retira e isola o ‘problema’ das vistas da sociedade e da família. Não parece tão mais fácil, limpo e higiênico fazer isso, lavando as mãos do cidadão de bem, já que nesta lógica o vício é uma problemática do indivíduo - que é/está doente - e não social? Pois bem, essa escolha tem um preço muito alto. O filme retrata muito bem as condições atrozes da instituição de caráter manicomial: tortura é uma prática constante, fora tantas outras privações concretas de comida, higiene básica, roupas, direito de ir e vir, convívio social e privações simbólicas, tão violentas quanto as concretas, em que os sujeitos perdem seus direitos básicos à singularidade: nome (afinal, após a institucionalização com frequência as pessoas viram números), escolha do que vestir, de horários a seguir. Grande parte dessas pessoas é permanentemente abandonada pela família e amigos, não tendo para onde ir após o período de internação; além do peso do estigma de ter sido internado, que interfere nas relações sociais e na (re)inserção no mercado de trabalho, o isolamento e o desamparo continuam. Frequentemente o preço é pago com a própria vida; o número de mortes registradas nessas instituições é alarmante, e é sabido que grande parte das perdas não é registrada.

Depois da breve porém indigesta exposição desse assunto, imagino que você deve estar se perguntando “mas… por que este filme continua tão atual? Uma barbárie dessas não deveria ter sido extinta há muito tempo?”. Então, senta aqui. Segura essa:

No início do mês de março deste ano, em uma reunião do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas - CONAD, foi votada uma nova resolução acerca da política pública sobre entorpecentes, com um viés conservador e totalmente proibicionista: um retrocesso. Esta mudança fomenta uma outra perspectiva de cuidado e atenção aos usuários de drogas; ao invés de uma política que pensa pelo viés da redução de danos, teremos uma política guiada pela via da abstinência. 

Redução de danos é uma abordagem que visa a socialização política dos usuários de drogas de maneira crítica, a fim de que eles se tornem protagonistas de si, promovendo auto-cuidado e busca por direitos e cidadania. Parte-se de uma visão humanizada dos usuários (não, não é redundância ter que dizer isso, infelizmente). Pensar pela ótica da redução de danos é pensar que, invariavelmente, existirá e existe o consumo de entorpecentes na sociedade. O que fazer com isso? Aí é que tudo muda. Nesta perspectiva, os usuários não são vistos como doentes, criminosos ou incapazes de decidirem o que fazer com seus próprios corpos. Há a noção clara de que existem determinantes sociais, as vulnerabilidades, que levam as pessoas ao uso de entorpecentes. Sabe-se que não adianta propagar discursos proibicionistas e moralistas, o vício não é ausência de valores e moralidade, e que um endurecimento das leis relativas ao uso e comercialização destas substâncias não irá erradicar o uso de entorpecentes. É preciso auxiliar, acolher, fornecer informações, e não isolar, excluir, segregar.
Pensar pelo viés da abstinência é pensar justamente no caminho oposto da redução de danos: é pensar que é necessário acabar com o uso de drogas a qualquer custo, e que os usuários não possuem condições para decidirem por si próprios o que é melhor. O uso de drogas é diretamente ligado com criminalidade e ausência de caráter/moral. Torna-se, então, problema da justiça e da segurança pública, retirando força das políticas públicas de saúde e assistência social e seus aparatos, que vêm trabalhando para que uma perspectiva mais humana possa ser oferecida aos seus usuários. 

Desta forma, é possível afirmar que esta nova guinada tem forte caráter higienista, conservadora e acrítica, e que não irá produzir resultados efetivos, e sim irá fomentar a ideia de que usar drogas é ser marginal, incapaz, doente, e que precisa e merece ser isolado, discriminado ou tratado para se “endireitar” e se curar desta “doença”. 

Por último, mas não menos importante...

... o crème de la crème, a cereja do bolo: esta nova proposta facilitará o repasse de verba governamental para instituições da sociedade civil que não possuem nenhuma ligação com as diretrizes de saúde pública do SUS, ou seja, dinheiro dos cofres públicos para as comunidades terapêuticas. Estas, que possuem terapia só no nome, são baseadas em modelos manicomiais e trabalham na ótica da abstinência, internando e encarcerando os sujeitos; já vimos ali em cima como essa perspectiva olha para os usuários, os alienando e impedindo de exercerem sua cidadania plena, dando margem inclusive para internações compulsórias. Dificultando mais ainda este cenário, estas instituições são em sua maioria vinculadas à alguma instituição religiosa, que já trabalham com a ideia da abstinência e do usuário como doente/imoral, e que agora serão cada vez mais incentivadas e possivelmente financiadas pelo Estado para oferecerem este tipo de (des)cuidado e (des)serviço. 

Como dito acima, este tipo de mudança caminha juntamente com os ideais conservadores que vêm tomando o poder nos últimos anos; para além da questão ideológica, os valores neoliberais ditam as regras do jogo político. Se há lucro para determinadas instâncias (vulgo dono de hospitais psiquiátricos e comunidades terapêuticas, indústria farmacêutica), está tudo bem. Mesmo que muitas vidas entrem no meio da negociação como um ônus que faz parte do jogo.

Parece muito com o que o filme retrata, correto? Sim, porque a partir dessas mudanças, histórias como essas retratadas no filme e no livro poderão voltar a ser mais frequentes do que são. Para além da denúncia que a narrativa carrega, o filme se faz tão atual por trazer consigo problemáticas que, infelizmente, ainda se desenrolam no plano das macro e micropolíticas. O espectador é incitado a se questionar acerca da validade daquilo que é feito em nome da ciência - o saber médico, saber dado como irrefutável, cuja pretensão é a de ser a melhor (e única) voz a ser ouvida nos debates relativos ao trato dos usuários de entorpecentes, além de nos fazer questionar sobre o que é o vício e quais drogas dão aos sujeitos estatutos de viciados ou não. 

Retomando a fala de Ismail sobre o cinema que “educa”, acredito que este para além de educar, cutucar e questionar, também convida seus espectadores a buscarem conhecimento e informação acerca da temática abordada. Conhecimento que, neste caso, torna-se mais que necessário para nosso crescimento pessoal e profissional. A informação abre caminhos para a construção de uma prática mais ética e alinhada com os direitos humanos, a fim de promover cidadania e respeito, independentemente da área em que se atua e do meio social em que se circula. Sabemos que essa temática atravessa a todos nós. E, claro, o conhecimento é uma preciosa ferramenta de discussão e argumentação. Argumentos ignorantes e baseados em discursos de ódio são facilmente refutáveis com dados, documentos, informações verossímeis (xô fake news). Em tempos obscuros que vivemos, às vezes faz-se necessário tomar uma postura tal qual a do filme que “educa”: instigante, que possibilita desvio, ruptura, que provoca e tira o espectador-interlocutor da zona de conforto. 

1. Compreendo aqui o termo política como aquilo que gera “[...] compromissos e riscos que se conjugam nas ações e posições assumidas”. (STUBS; TEIXEIRA FILHO; PERES; 2014, p. 748).
2.  Polícia Federal - A Lei é Para Todos (2017), dirigido por Marcelo Antunez

PARA SABER MAIS SOBRE O ASSUNTO:







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2 comentários:

  1. Pode parecer bobo, mas isso me fez lembrar Kingsman 2. Um filme bloackbuster de puro entretenimento, mas que aborda a legalização das drogas. Claro que ele não vai ao fundo do assunto, só dando certas indiretas, como a questão do açúcar branco, que já foi comprovado ser mais viciante que qualquer droga ilícita. Ou que "pessoas de bem" tb usam. Etc.
    Ótimo texto, uma das barreiras de preconceito que ainda tenho bastante dificuldade de quebrar é justamente a de usuários de drogas e me ajudou a pensar um pouco mais sobre o assunto.

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  2. Oi Ju. Obrigada pelo comentário e pelo elogio! Realmente, essa temática é difícil e o estigma é grande. Mas repensar o próprio vício e o conceito de droga é um caminho interessante. Não conheço esse filme que você citou, mas vou procurar para assistir. Pode ter certeza! Abraços!! ♡

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